Cozinha em miniatura

Certo dia bebia uma cerveja com amigos na calçada de um bar no centro da cidade e uma moça se aproxima com uma bandeja, dizendo que aceitava qualquer contribuição pelos objetos que estava oferecendo. Quando olhei a bandeja, deparei com uma cozinha em miniatura. Panelas de pressão, caçarolas e chaleiras, de diversas estampas com cores diferentes, tinham sido recriadas a partir de latinhas de refrigerante. Abri minha bolsa e ofereci os trocados que tinha, me levantei e fui observar mais de perto os objetos, que logo me interessaram.

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Me lembrei então de um outro objeto, fruto de um encontro passado. Certa vez, ao passar por uma rua movimentada no bairro em que moro, avisto um homem sentado na calçada, expondo objetos feitos de latinhas reaproveitadas. Como os objetos me chamaram a atenção, parei para conversar. O homem estava oferecendo uma panela de pressão em miniatura pelo valor de cinco Reais. Ele vivia em situação de rua. De quando em vez era levado para abrigos distantes, mas logo saía de lá, voltando para a difícil liberdade de quem vive sob as estrelas.

Os objetos eram uma maneira que ele tinha de conseguir uma módica renda, que permitia a ele se deslocar na cidade pegando ônibus, ou comer alguma coisa. Levei uma das panelinhas que enfeita a geladeira da minha casa há cerca de dois ou três anos. No entanto, nunca mais encontrei o artesão que deu vida àquele objeto. Ao avistar a bandeja colocada em cima da mesa do bar onde estava, esses dois momentos se encontraram.

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A autoria do objeto dessa vez era de uma mulher, a artesã se chamava Rose. Ao observar a panela de pressão feita por Rose, percebi diferenças em relação àquela que eu tinha e comentei. Rose logo argumentou sobre a especificidade de suas técnicas.

image9Ela não gostava de colocar parafusos nas panelas, todas as suas panelas eram feitas apenas com encaixe.

Ela também não gostava de esconder a estampa própria de cada latinha, o que conferia diferentes cores aos objetos, singularizando-os. A panela que eu tinha era inteira da cor do alumínio, pois foi usado o lado interior da lata, igual em todas elas.

Além disso, Rose também criava vários objetos diferentes, produzindo um verdadeiro jogo de cozinha. Chaleiras, caçarolas e panelas de pressão poderiam formar conjuntinhos, especialmente se feitos com as mesmas estampas (roxa, laranja, preta, etc).

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O único adereço alheio à matéria-prima oferecida pela própria lata que ela utilizava eram palitos de fósforo. Fiquei encantada com aquela personagem e sua cozinha em miniatura.

Espero em breve reencontrar Rose, conhecer melhor a sua história e criar um meio de contato para aqueles que se interessarem pela sua cozinha!

FullSizeRender-13Rose e sua cozinha em miniatura

Créditos das imagens: residualogics
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